skip to Main Content

Febre: Amiga ou Inimiga? 

Pode um sapo ou uma cobra ter febre?, a “febre de palco”(medo de se apresentar em público) é real como a da malária?, a febre ajuda a combater infecções?, essas são algumas perguntas que recebemos de pessoas e colegas curiosos.

A febre, um fenômeno tão comum quanto intrigante, tem sido historicamente associada à doença. No entanto, a ciência moderna a revela como uma resposta complexa e multifacetada do organismo, orquestrada pelo sistema nervoso central em resposta a diversos estímulos.

Desvendando a Febre: Definições e Mecanismos

A temperatura corporal normal oscila em torno de 37°C, com variações de até 0,5°C ao longo do dia. A febre, por sua vez, é um aumento anormal dessa temperatura, mediado pelo hipotálamo anterior, em resposta a substâncias indutoras de febre (pirógenos).

Os pirógenos podem ser exógenos, como as toxinas bacterianas, ou endógenos, como as interleucinas produzidas pelo próprio corpo. Ao detectarem pirógenos, macrófagos e monócitos liberam interleucinas (IL-1, IL-6, TNF), que atuam no hipotálamo através da prostaglandina E2 (PGE2) e seus receptores específicos, elevando o ponto de ajuste térmico e desencadeando a febre.

O corpo responde aumentando a produção de calor (tremores, termogênese) e reduzindo a perda de calor (vasoconstrição). A termorregulação se estabiliza no pico da febre, mantendo a temperatura elevada até a eliminação dos pirógenos ou a administração de antitérmicos.

O Papel da Febre na Defesa do Organismo

A febre desempenha um papel crucial na resposta imune, inibindo o crescimento de patógenos, aumentando a atividade bactericida dos neutrófilos e estimulando a produção de proteínas de fase aguda.

No entanto, a febre descontrolada pode levar a uma resposta inflamatória exacerbada, com consequências graves. O monitoramento e tratamento adequados são essenciais para evitar complicações.

Causas da Febre: Além das Infecções

 

Embora frequentemente associada a infecções, a febre pode ser desencadeada por diversas outras causas, como reações de hipersensibilidade, doenças autoimunes, neurológicas, malignidades e doenças autoinflamatórias.

Perspectiva Histórica e Prática Atual

A compreensão da febre evoluiu ao longo da história. Ela tem sido reconhecida como um sinal de doença desde a antiguidade, com estudiosos egípcios já associando-a à inflamação. No século XIX, pesquisas na Europa e EUA aprofundaram o conhecimento sobre a febre, identificando-a como uma resposta regulada pelo cérebro, desencadeada por substâncias chamadas pirógenos. Experimentos com injeção de pus em animais confirmaram essa relação.

Avanços significativos ocorreram em meados do século XX, com o isolamento de substâncias indutoras de febre, como o “pirexin” e o “pirógeno endógeno” (posteriormente identificado como interleucina-1). A introdução de salas termoneutras nos anos 1980 permitiu um estudo mais preciso da resposta febril, consolidando o conhecimento atual sobre o tema.

Apesar dos avanços científicos, a prática clínica ainda se concentra no uso de antipiréticos para qualquer febre, negligenciando o papel benéfico da febre na resposta imune. Essa “fobia da febre” pode levar a tratamentos desnecessários e à perda de informações valiosas sobre a doença subjacente.

Conclusão: Uma Abordagem Equilibrada

A febre é uma aliada poderosa na luta do corpo contra as doenças, mas também pode ser um sinal de alerta para condições graves. Uma abordagem equilibrada, baseada em evidências científicas e no contexto clínico individual, é fundamental para o manejo adequado da febre.

Ao compreendermos a complexidade da febre, podemos valorizar seu papel na defesa do organismo e tomar decisões clínicas mais informadas, visando sempre o bem-estar do paciente.

Dr. Javier Ricardo Carbajal Lizárraga.

Especialista em Alergia e Imunologia.

Crianças e adultos.

RQE 21798. CRM/SP 92607.

Alergista e Imunologista pela USP e Sociedade Brasileira de Alergia e Imunologia. Membro da Sociedade Brasileira de Alergia e Imunologia ASBAI; American Academy of Allergy; Asthma & Immunology AAAAI member; Clinical Immunology Society CIS member; European Academy of Allergy and Clinical Immunology (EAACI) member; European Society for Immunodeficiencies member and Latin American Society for Immunodeficiencies (LASID) member.

 

Leituras recomendadas:

  • El-Radhi, A.S. (2018). Pathogenesis of Fever. In: El-Radhi, A. (eds) Clinical Manual of Fever in Children. Springer, Cham. https://doi.org/10.1007/978-3-319-92336-9_3. 
  • Bakalli I, Klironomi D, Kola E, Celaj E. The management of fever in children. Minerva Pediatr (Torino). 2022 Oct;74(5):568-578. doi: 10.23736/S2724-5276.22.06680-0. Epub 2022 Jul 13. PMID: 35822579. 
  • Adam HM. Commentary: Fever Is Your Friend. Pediatr Rev. 2023 Dec 1;44(12):701-705. doi: 10.1542/pir.4412commentary. PMID: 38036432. 
  • Schutt C, Siegel DM. Autoinflammatory Diseases/Periodic Fevers. Pediatr Rev. 2023 Sep 1;44(9):481-490. doi: 10.1542/pir.2022-005635. PMID: 37653132.
  • Ogoina D. Fever, fever patterns and diseases called ‘fever’–a review. J Infect Public Health. 2011 Aug;4(3):108-24. doi: 10.1016/j.jiph.2011.05.002. Epub 2011 Jun 14. PMID: 21843857. 
  • Balli S, Shumway KR, Sharan S. Physiology, Fever. 2023 Sep 4. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2024 Jan–. PMID: 32966005. 
  • Osilla EV, Marsidi JL, Shumway KR, Sharma S. Physiology, Temperature Regulation. 2023 Jul 30. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2024 Jan–. PMID: 29939615.

Esperamos que esta matéria seja útil para você. Se houver algum tema relacionado à imunologia que seja do seu interesse, nao duvide em sugerirlo no nosso blog. 

 

Gostou do texto? Compartilhe com seus amigos!

This Post Has 0 Comments

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back To Top
×Close search
Pesquisar